quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Na estrada da Vida

"Julgamos ser coisa simples pensar na vida. Muitas vezes, ficamos a pensar no que nos tem acontecido, revemos os nossos actos, fazemos planos para o futuro. Imaginamos um outro caminho, que poderíamos ter seguido, imaginamos o que gostaríamos que nos acontecesse no futuro e julgamos com isto que pensamos na vida. Pensar na vida, no entanto, não é assim tão simples. (...) Quando pensamos a vida não se trata apenas de recordar o passado ou imaginar o futuro. Trata-se de julgar a nossa participação na existência, de decidir a nossa vida em função de uma consciência, e de uma responsabilidade assumida, que efectiva a possibilidade de existirmos como seres livres, segundo o que dispõe a nossa natureza.
«Na estrada da vida», eis uma expressão que se repete permanentemente. Fosse apenas uma expressão literária e não haveria problema. Há um problema, no entanto, e grave. É que pensamos a vida como uma estrada. Nascemos, crescemos, aprendemos a andar. Andamos por ruas, andamos por estradas, andamos por caminhos, andamos por picadas, andamos por florestas, abrindo trilhas. Ficamos com a ideia de que a vida é como uma estrada por onde passamos, por onde outros já passaram e por onde outros passarão. E aí está porque somos incapazes de pensar convenientemente a vida.
Martin Heidegger propôs que, para pensarmos a nossa existência, nos imaginássemos a despertar no meio de uma floresta sem qualquer estrada ou caminho. A existência de cada um é uma floresta onde jamais um caminho foi aberto. Cada um de nós tem de abrir o seu caminho, cada um de nós tem de construir a sua própria estrada. Com esta imagem, Heidegger procura mostrar que o fundamental para pensar a existência é não a pensar como uma estrada que já está preparada e a qual é suficiente percorrer. Não, os caminhos não estão preparados, e, na verdade, não existem estradas e não existem caminhos. Existe o ser humano, que se desenvolve no tempo. Para o ser humano, do ponto de vista da sua vida, de facto, nem as ruas por onde caminhamos, nem as estradas que percorremos são sempre as mesmas. Na perspectiva da duração interior que é o nosso existir no tempo, que é o nosso existir histórico, tudo é novo. E, no entanto, viver é ter a consciência de construir a própria vida. Viver é caminhar, certos de que não existe um caminho anteriormente traçado na existência. O caminhar é o caminho, cada passo que damos abre um caminho, cada escolha que realizamos aprisiona-nos e fortalece-nos, porque é uma autodeterminação. O modo por que vivemos constrói a expressão do que somos e do que nos fazemos ser. Pensar a vida não é pensá-la em termos de caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser. E, por isso, o que importa é saber como participamos na vida, como sentimos a vida, o que construímos do nosso próprio ser no nosso próprio modo de ser. Desta forma, a vida aparentemente mais simples pode ser a mais heróica, tudo dependendo da intensidade de vida com que o nosso ser se realiza no seu modo de ser.”

E. Prado de Mendonça, 0 Mundo Precisa de Filosofia.

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