sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Por aí...


Caminho sem direcção, percorro um raio de luz, uma luz que ilumina os passos quentes da manhã. Uma luz que não sei explicar, apenas a preservo presente. Devolvo-a à realidade? E se de repente eu já não a sentir?

Queria entender, mas as palavras, esses mistérios carregados, não se deixam decifrar. Será que um dia uma delas se me revelará, será que me traduzirá a sua vivência?

Na rua deparo-me com olhares que me trespassam como flechas, o que me estarão a dizer, ou simplesmente não me quererão dizer nada? Caminho por aí, a procurar, não sei o quê, apenas vou por aí a procurar. Assisto ao nascer do sol, às ondas do mar e continuo por aí, a procurar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Acordo Ortográfico

O linguísta e filólogo António Emiliano publicou o seguinte texto, na Revista Autor contra o Acordo Ortográfico.

Cabo Verde

©Reitmaier 2006

Aquando a aterragem na capital de Cabo Verde, avistei da janela do avião a cidade da Praia e apenas conseguia visualizar um aglomerado de blocos. A construção das casas não estava terminada e isso dava-lhes uma característica sombria. Não consegui visualizar nenhum tipo de vegetação, apenas aquela cor terra e um remoinho de pó que fazia prever o forte vento que se sentia.
Quando aterrei, senti uma vaporada de ar quente invadir-me todos os poros da minha pele, um ar rarefeito, um cheiro intenso que não conseguia identificar. Muitas pessoas olhavam para dentro do aeroporto. Um olhar muito curioso, muito atento, como se procurassem preencher o vazio que os revoluteava.

Cheguei a S. Vicente, contemplava a água cristalina daquele mar interminável, simplesmente excelsa, a água colorida de azul-turquesa que pintava Mindelo. As pessoas passeavam calmamente e examinavam-me com um olhar que me perturbava, gostava de passar despercebida e aqui parecia um pedido inalcançável. Tudo parecia dimanar de uma veemência própria, admirava tudo à minha volta, cheiros novos que gotejavam lentamente, olhares que atravessavam a minha curiosidade, sons que abraçavam o ar quente que se fazia sentir, palavras sem um compasso certo, carregadas de uma melancolia que me invadia.


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Aos meus amigos


Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos…
Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim… do companheirismo vivido… Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre…
Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe… nos e-mails trocados…
Podemos nos telefonar… conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar… meses… anos… até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo…
Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E… isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente… Quando o nosso grupo estiver incompleto… nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos…
Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado… E nos perderemos no tempo…
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades…
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores… mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!

Vinicius de Morais

Inteiramente livre


Não tremas. Eu não te vou prender, não te vou perseguir, não te vou enfeitiçar. És inteiramente livre. Poderia eu querer-te preso, mesmo a mim, depois do que para mim foste? Se eu te prendesse, ainda que com laços de imenso amor, a que tu próprio não quisesses fugir, que alegria seria a tua nos meus braços, ou a minha nos teus? Amar-me-ias por certo com uma violência maior, como se quisesses matar-me com as tuas armas de homem, e eu tiraria um prazer dobrado. Mas depois... depois como poderia eu olhar-te nos olhos, vendo neles um rancor horrível de estares preso a mim, rancor que nem tu confessarias a ti mesmo, mas que os teus olhos me diriam para sempre, a cada hora, mesmo quando ardessem no desejo ou no acto de estares em mim?

Jorge Sena